Tema desta edição - DEZEMBRO DE 2025:
Nomear as diferenças é criar identidades
Imagine um mundo onde cada pessoa é como um livro único na prateleira da vida. Quando você pega um livro e dá um nome a ele baseado no que você acha da capa ou das primeiras páginas, você está criando uma identidade para ele. O tema "Nomear as diferenças é criar identidades" nos faz pensar exatamente nisso: ao rotular alguém como "diferente", estamos moldando quem ele é não por sua essência, mais com base nos parâmetros de nossos próprios olhos, misturando nossas próprias histórias e visões de mundo com o que de fato estamos vendo.
Nomear o outro começa com uma simples observação. Você vê alguém com roupas diferentes das suas, ou falando de um jeito que não é o seu habitual, e logo pensa: "Ah, ele é estrangeiro" ou "Ela é alternativa". Mas esse nome não sai do nada. Ele vem carregado das suas experiências passadas, como as viagens que você fez ou os filmes que assistiu. É como se você estivesse pintando um retrato do outro com as cores da sua própria paleta. E, antes mesmo de utilizar cores, você teve que escolher as cores, mesmo sem ter nomeado o outro. Pense nisso.
Essas camadas culturais que projetamos são invisíveis, mas poderosas. Se você cresceu em uma família que valoriza tradições antigas, pode nomear alguém mais moderno como "rebelde" ou "sem raízes". Isso não é só uma palavra; é uma projeção da sua cultura sobre o outro, criando uma identidade que o separa de você. De repente, o que era só uma pessoa vira "o diferente", alguém que não encaixa no seu mundo familiar.
Pense em como isso acontece na literatura que você ama. Em romances como "O Estrangeiro", de Albert Camus, o personagem principal é nomeado como "outsider" pela sociedade, projetando sobre ele medos e preconceitos coletivos. Nós, leitores jovens, sentimos isso porque vivemos em um mundo conectado, onde redes sociais amplificam essas nomeações o tempo todo.
Mas há um lado filosófico mais profundo. Como explica Edward Said em seu livro "Orientalismo" (1978), o Ocidente historicamente nomeou o "Oriente" como exótico e inferior, projetando ideologias coloniais para justificar dominação. Isso cria identidades artificiais, onde o outro é visto como ameaça ou inferior, baseado não na realidade, mas em projeções culturais. (https://en.wikipedia.org/wiki/Orientalism_(book))
Ao nomearmos o outro temos que admitir que existe uma alteridade, isto é, que existe algo externo a nós mesmos, algo que nos é independente. Ao mesmo tempo, insistimos em destacar o que nos separa. É como dizer: "Você existe, mas é tão diferente que precisamos de uma barreira". Essa distinção vem da necessidade humana de se definir pelo contraste, como sombras que só aparecem com a luz.
Nossas ideologias entram forte nisso. Se você conhece o livro "1984", de George Orwell, sabe como governos nomeiam grupos como "inimigos" para unir seus próprios seguidores em torno de projetos que mantenham seu status quo. Projetamos nossas crenças políticas ou religiosas sobre o outro, criando identidades que nos distanciam, como se a diferença fosse uma muralha em vez de uma ponte.
Você já ouviu algum político inescrupuloso dizer que agora é hora de combater os "eles". Nesse sentido, nomear o outro como "eles" é um artífico para escapar da responsabilidade, jogando a culpa "neles".
Jacques Derrida, na filosofia da diferença, nos ajuda a entender melhor. Ele fala de "différance", um conceito que mistura adiamento e diferença, mostrando como nomear o outro desconstrói hegemonias e permite identidades plurais. Ao nomear diferenças, criamos espaço para o marginal, mas também arriscamos reforçar desigualdades se não valorizarmos a alteridade. (https://periodicos.uninove.br/eccos/article/download/244/239/755)
Para quem gosta de literatura, façamos um convite à essa questão. Reflita. Na saga "Harry Potter", as diferenças são nomeadas entre trouxas versus bruxos. A partir da diferença, busca-se criar identidades, grupos, movimentos, facções, partidos, torcidas. No entando, a coisa é mais complexa, pois na vida real, ao projetar nossas experiências sobre o outro, criamos identidades que podem isolar e, ao mesmo tempo, enriquecer a experiência do convívio. Temos que aprender a usar a diferenciação.
No fim, nomear diferenças não é ruim; é humano. Mas lembre: ao fazer isso, estamos tecendo uma tapeçaria de identidades onde o fio da nossa visão domina. A própria trama da tela é concebida antes mesmo da primeira fiada de pensamento ou ideia.
Para um mundo melhor, talvez devamos nomear com curiosidade, não com distância, transformando diferenças em histórias compartilhadas.
Nomear é divino
José Santhiago
Advogado, Historiador e Pós em Jornalismo Digital. Autor do livro "Caminhada contra o câncer". Assistente em Comunicação Integrada. Instagram: @santhiago
Dar nome às coisas é quase um superpoder humano. Sem nome, tudo seria uma massa confusa de objetos, pessoas e sentimentos. Quando você chama alguém pelo nome, não está apenas identificando essa pessoa. Está sendo criada uma história sobre ela, uma marca, uma identidade que vai acompanhá-la para sempre. É como se cada nome fosse um rótulo invisível grudado na testa, dizendo ao mundo: “Ei, eu sou eu, e não qualquer um.” E claro, nomes podem ser bonitos, estranhos, engraçados ou até pesados de carregar. Quem nunca conheceu alguém que odiava o próprio nome porque achava que não combinava com sua personalidade? Pois é, nomear é tentar organizar o caos.
Mas aqui vem a ironia: ao mesmo tempo em que queremos nos enturmar, queremos ser diferentes. Queremos que nosso nome seja lembrado, mas também que não seja motivo de piada. É o dilema clássico da humanidade: ser parte da turma sem virar cópia barata. Você quer estar no grupo do WhatsApp, mas também quer que sua figurinha seja a mais criativa. Quer ser reconhecido, mas não confundido. Nomear, nesse sentido, é como tentar escolher a melhor roupa para a festa: você quer estar dentro do figurino aceitável, que não seja ridículo, mas paradoxalmente quer aparecer com aquele detalhe que faz todo mundo comentar. “Nossa, olha só o estilo dele.” É identidade e pertencimento, tudo misturado.
E não pense que isso vale só para pessoas. Empresas sabem disso. Por isso investem tanto em nomes de marcas. Nome de empresa, de produto, de banda… tudo é pensado para criar uma identidade que grude na cabeça. Quem diria que “Apple” seria mais do que uma fruta? Ou que “Nike” viraria sinônimo de vitória e estilo? Nomear é marketing, é estratégia, é poder. Nós fazemos isso o tempo todo sem perceber. Damos apelidos aos amigos, chamamos de “mozão” o nosso par especial, inventamos nomes para grupos de estudo. Cada nome é uma tentativa de dizer: “Sou especial.”
Agora, se somos humanos e nada nos é estranho, como já dizia Terêncio lá na Roma Antiga, então nomear também é aceitar a diversidade. É entender que cada identidade é única, mas que todas fazem parte do mesmo caldo cultural. Penso sempre em uma cebola, com suas várias camadas. Assim são as identidades. A cebola não existiria sem suas camadas culturais. Sentir-se com identidade é se permitir rir dos apelidos, é respeitar os nomes diferentes, é perceber que até o mais esquisito tem seu charme. Afinal, quem nunca quis trocar de nome só para ver como seria viver outra vida? Nomear é brincar com a própria existência, é experimentar versões de si mesmo.
No fim das contas, nomear é criar mundos. É dar identidade ao que poderia ser apenas anônimo. É o jeito humano de dizer: “Eu existo, eu pertenço, mas também sou diferente.” E, talvez, seja justamente essa contradição que nos situa no universo. Queremos nos enturmar e, ao mesmo tempo, nos esforçamos para nos destacar dos demais. Isso nos torna tão fascinantes. Somos a humanidade em pessoa. Convenhamos! Se todo mundo fosse igual, a vida seria um tédio monumental, chato à bessa. Nomear é criar identidades, e identidades são o tempero que faz a vida valer a pena e ter aquele gostinho de "quero mais".
A identidade clama por memórias. Queremos que nossos contemporâneos se lembrem do nosso nome, mas sem virar meme. Queremos que as memórias que o grupo guarda de nós se tornem história. E, na História, queremos aparecer, mesmo que no futuro, com certo destaque.
No final das contas, nomear é exercer o poder de criar. Talvez por isso tenhamos criado tantos títulos para Deus. Não tanto por necessidade, mas por inveja. Inveja Dele pelo fato de nos ter dado o poder infinito de nomear tudo à nossa volta na vã expectativa de sermos considerados importantes por aqueles a quem nomeamos.
Nomear é criar e criar é divino!
Obstáculos podem ser superados. Enfrente-os!
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